segunda-feira, outubro 19, 2009

Inesquecível.

Às vezes temos a sorte de conhecer pessoas que nos tocam. Pessoas que, por terem um percurso de vida excepcional e um carácter fora do comum, se distanciam do comum dos mortais. Pessoas que inevitavelmente deixam a sua marca em todos aqueles que cruzam o seu caminho. Estas pessoas são maiores que a vida e, quando partem, deixam para trás muito mais que uma sensação de perda irreparável e um mar de saudades inconsoláveis.

Eu tive o privilégio de conhecer uma dessas pessoas. Mais do que isso, tive a honra de estar suficientemente próxima para quase me poder considerar da sua família. Estimo cada momento que passei com ele e todos os pedacinhos de sabedoria com que me presenteou. Recordo já com imenso carinho os fragmentos de vida que amavelmente partilhou comigo. Infelizmente, nem aqui é lugar, nem eu me sinto à altura de apresentar uma vida transbordante de feitos grandiosos, caracterizada por uma inestimável riqueza de pormenores, plena de vivências invejáveis, marcada por intensas alegrias e sucessos, ferida por profundas tristezas e desilusões.


Posso apenas tentar revelar um pouco do Homem que conheci. Este Homem, que percorreu mundo, ergueu um império jornalístico e marcou de forma indelével uma época, nunca esqueceu aqueles que dele precisaram. Este Homem, conhecido pela vontade férrea, feitio intransigente e reacções coléricas, não hesitava em louvar abertamente o amor da sua vida, exibindo fotografias e relatando os feitos daquela que escolheu para companheira de vida. Já não se fazem homens assim. O molde partiu-se e os últimos exemplares teimam em cansar-se de um mundo demasiado pequeno e mesquinho para eles.


Nunca vou esquecer a forma carinhosa como me incluiu no seu coração. Retribuo mantendo-o para sempre no meu. Adeus Sr. R.


Imagem: retirada do site comunidadedetete.multiply.com/

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terça-feira, outubro 06, 2009

Don’t you feel like crying?

Em 1987, um pequenino filme destinado ao fracasso (do argumento - colocado em hold por vários estúdios - à reacção de produtores e patrocinadores perante o produto final - “Queimem as bobines e recolham o dinheiro do seguro.”) abanou o ano cinematográfico e tornou-se um dos mais vistos e rentáveis de sempre. Quanto a mim, se houve filme que marcou a minha adolescência foi “Dirty Dancing”.

Fui vê-lo com uma das minhas melhores amigas e, a partir do momento em que saímos do cinema, ficámos mais ou menos 6 meses numa alternância entre suspiros e passos de dança. Foi muito fácil identificarmo-nos com aquela menina ingénua e virginal, com fortes ligações afectivas ao pai, que descobre numas férias o poder da atracção, a força do amor, a magia da dança. O que nós queríamos ser a Baby, o que nós queríamos um Patrick Swayze só para nós, o que nós queríamos uma cave escura e fumarenta onde pudéssemos ensaiar uns passos de dança super sensuais. A cena em que o casal passa a primeira noite juntos entrou directamente para o meu coração e estabeleceu um standard difícil de equiparar: haverá algo mais erótico do que aquela dança de corpos colados, que se desnudam e descobrem ao som de um tema de intensidade perturbadora? Inesquecível.


Há duas semanas atrás, revi o filme e voltei a apaixonar-me. Mas agora com uma paixão mais pungente, mais dolorida, menos inocente: o bad boy sensível, o bailarino incontornável, uma das referências da minha juventude desapareceu para sempre. Patrick Swayze partiu, vítima da mais cruel das doenças, uma sombra da personagem que encarnou. Ainda que não sirva de consolo, fica a certeza de ter tocado inúmeras vidas, de ter lugar permanente no imaginário de milhões de pessoas.


PS - Um ou dois anos mais tarde fui ver o “Pretty Woman”, com a mesma amiga. Apesar de ter sido outra experiência cinematográfica bastante marcante, não obteve o mesmo efeito: era mais difícil identificarmo-nos com uma prostituta de esquina de L.A. …


Imagem: retirada do site www.vol1brooklyn.com

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segunda-feira, setembro 21, 2009

My favourite serial killer

Eu sempre tive um fascínio inexplicável por serial killers. Na mesma altura em que ainda trocava cromos dos Modern Talking com as amigas, já andava pelas bibliotecas (sim, que no meu tempo não havia Net para toda a gente…) a tentar saber mais sobre o sedutor Ted Bundy e o infame David (Sun of Sam) Berkowitz.

Desconfio que as razões se prendem com a necessidade de compreender o que me rodeia e, sobretudo, as acções dos seres humanos (o que gostava de tirar um curso de psicologia!). Sempre quis perceber como é que pessoas com uma inteligência acima da média e donas de um charme irresistível, podem simultaneamente arquitectar e levar a cabo a morte (na maior parte das vezes macabra) de outros seres humanos. Também não entendo como é que um indivíduo capaz de albergar tamanho mal dentro de si se consegue fundir na sociedade durante um período de tempo obrigatoriamente longo (caso contrário seria um “single killer”…). Assim, mais do que qualquer outro tipo de assassinos e homicidas, estes sociopatas assustam-me pelo requinte da sua malvadez e levam-me a questionar a verdadeira capacidade de análise dos seres humanos (sempre que um é capturado aparecem logo todos os amigos e conhecidos a justificar a sua cegueira: “Era uma excelente pessoa…ninguém podia suspeitar de uma coisa destas…”).


Bem, mas esta conversa toda para quê? Porque, num acesso de brilhantismo norte-americano, surge uma série que joga com todos os receios e ansiedade relativos a esta questão: “Dexter”, um serial killer de serial killers. Haverá conceito mais bem conseguido que este? Sem conseguirmos culpabilizar a personagem principal, e incapazes de não simpatizar e torcer por ele, assistimos dia após dia ao ritual segundo o qual Dexter captura, assassina e se desfaz dos corpos da sua vítimas. Com a desculpa de um passado traumatizante e regido por um código de valores desenvolvido especificamente para nos amaciar a consciência, este serial killer mais não faz do que aquilo que todos gostaríamos de poder fazer: eliminar a escória da sociedade, criminosos da pior espécie, violadores, sádicos, pedófilos, todos com o carimbo inquestionável de assassinos. No meio de tudo isto, assistimos às suas reflexões absolutamente amorais sobre a sociedade, as relações, a família e o trabalho. É que Dexter não julga nem sente como os restantes mortais. Mesmo com a evolução da personagem (que entretanto ganhou uma mulher e um filho), continua a analisar tudo friamente e sem qualquer ligação emocional, mantendo intacta a sua regra de ouro: não ser apanhado. É impossível ver a série sem ficarmos absolutamente rendidos ao seu raciocínio brilhante e humor cínico.


É raro uma série ou filme conseguirem manter o nível do livro que lhes deu origem. Neste caso, o livro de Jeff Lindsay é mais negro, apresentando um Dexter bastante mais desligado daqueles que lhe deveriam ser próximos, mas a série consegue estabelecer uma ligação indelével com os seus espectadores. Sem dúvida que a riqueza e envolvência dos sucessivos argumentos, um elenco excepcional e as estrelas convidadas das várias temporadas em muito contribuíram para o sucesso, mas a responsabilidade por transformar “Dexter” numa série de culto vai inteirinha para Michael C. Hall. A antiga estrela de “Six feet under” consegue que o seu assassino frio e distante, uma das mais complexas personagens da televisão actual, conquiste o público, transformando a sua interpretação num case study sobre como dar vida a um homem complicado e permanentemente assombrado por demónios interiores. Devia haver Oscars para TV, porque um Emmy vai sempre saber a pouco.


Venha rápido a Temporada IV, que eu já estou a sentir os efeitos da ressaca.


Imagem: retirada do site http://www.buddytv.com/articles/dexter/dexter-season-4-speculations-25368.aspx

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terça-feira, junho 23, 2009

Era uma vez uma Gata

Há cerca de 9 anos, uma vizinha, sabendo que a minha família é constituída por Cat people, levou à minha mãe uma gatinha bebé. A ideia seria ficarmos com ela, mas a minha mãe, cansada de sofrer por lhe envenenarem os animais de estimação (sim, ainda há monstros que fazem coisas como esta), recusou. A alternativa? Segundo a minha vizinha, seria deitar o bichinho fora. E foi assim que a Gata entrou na minha vida. Incapaz de deixar que o animal (falo da minha vizinha) se livrasse da bolinha de pêlo, levei-a para minha casa (a bem da verdade diga-se que, na altura, estava em casa alheia, mas o dono ficou ainda mais rendido que eu à pequena visitante).


Apesar de obviamente arraçada de siamês (o tom azul dos olhos prova-o), a minha gata não era um gatinho lindinho, como nos habituamos a ver: estava bastante magra e a cabeça era um pouco desproporcional relativamente ao corpo (o que, quando andava, lhe dava um ar de boneco articulado, com as patas a tentarem encontrar o ponto de equilíbrio que a impedisse de tombar para a frente); por seu lado, as orelhas eram demasiado grandes para a cabeça e, para completar, os olhos, também enormes, acusavam um ligeiro estrabismo. Estão a ver, não? Parecia uma versão felina do Gremlin, o que justifica a primeira reacção do meu pai ao vê-la: “Que bicho feio!”. Por isso me admiro tanto que se tenha transformado num dos gatos mais bonitos que já vi: a pelagem listada num jogo de tons creme claro e cinza escuro, uns fantásticos olhos azuis, realçados com risco negro natural, um focinho de traços fortes e uma elegância ímpar.


Mas se o aspecto actual conquista qualquer pessoa, o que realmente a torna única é o seu feitio especial. Além dos habituais estragos na mobília, cortinas e tapetes, esta gatinha sempre gostou de acelerar a grande velocidade pelos corredores da casa, derrapando nas esquinas e embatendo de frente contra qualquer obstáculo (influências do "pai"?...), de trepar as laterais das portas, até ficar mais ou menos ao nível dos nossos olhos, só para nos atirar um “miau!”, de levar uns snacks da cozinha para a sala, acompanhando-nos nas maratonas em frente à televisão (e quando falo de snacks, refiro-me, por exemplo, a 2 fatias de pão com uma de fiambre…), de se atirar pela janela do 3º andar atrás de um pombo mais distraído, etc, etc. E estas diabruras não são nada ao pé de uma personalidade verdadeiramente vincada: dos amuos, quando por alguma razão não se lhe dá a atenção que ela julga merecer (que incluem sentar-se de costas para nós, mirando distraidamente por cima do ombro), aos lendários ataques de ciúmes quando dirigimos a atenção para alguém que não a deusa em forma de gata (desde afastar mãos com as 2 patas a deitar-se em cima da cabeça que esteja no colo pretendido, vale tudo).


Nesta gata se conjuga tudo o que associamos a um felino. Daí que, quando foi necessário dar-lhe um nome, optei pelo que melhor a descreve: Gata. Assim mesmo, com letra grande e garras de fora. Porque esta não é uma mera gata, é a Gata.

Imagem: Gata, 2004

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segunda-feira, maio 25, 2009

A esperança

A esperança pode ser a única coisa que resta ao ser humano, mas também é um dos sentimentos mais eficazes para destruir esse mesmo ser humano.


Não há pior que o som de uma esperança a ser esmigalhada. Ela anda por ali, não é?, a nossa esperança, a passear, linda e loira, com enormes olhos azuis, a espalhar desejos e projectos à sua volta, passarinhos e borboletas em seu redor, e nós a pensar “se calhar vai mesmo correr tudo bem!”. E, de repente, vem um pé gigante de uma nuvem negra parada no céu e pimba (influências de Monty Phyton, o quê que querem?!)! Lá fica a nossa esperançazinha toda esmagadinha no meio do chão, os caracóis do cabelo esticados à bordoada, completamente knock out, sem dizer ai nem ui. E, com ela, lá vai também para baixo o nosso sorriso e o ânimo tão bem preservadinho no cantinho do nosso coração.


Sempre que uma esperança morre, ia jurar que oiço os sinos tocarem também pela pessoa a quem pertencia. E não se pode criticar. É que, às vezes, a vida parece mesmo uma anedota. É como se uma entidade divina estivesse lá em cima, a rir-se de nós e a dizer aos amigos “Eh pá, vocês lembram-te daquele tipo que queria abrir uma leitaria em Freixo de Espada à Cinta? Sim? Nem imaginam o que eu fiz às vacas…”, e os outros, “Eh pá, oh Deus, tu és mesmo um pândego sem emenda…”. E entretanto nós estamos cá em baixo a pensar “Mas porque raio é que eu não desisto de uma vez? Está-se mesmo a ver que Deus não gosta nada de mim!”.



É, apesar de perceber que os seres humanos têm de saber reagir às adversidades e seguir em frente, que cada vez que se cai tem de se apanhar uma pedra (segundo dizia Fernando Pessoa, para se construir depois um castelo), que se não fosse isso o mundo já não existia, etc., etc.…, há alturas em que dá mesmo vontade de esganar as pessoas que nos dizem para “mantermos a esperança”.



Imagem: retirada do site www.myspace.com


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segunda-feira, maio 11, 2009

As vocações, os talentos e os oportunismos

Sempre ouvi dizer que, para que uma vida valha a pena, temos de fazer 3 coisas antes de morrer: ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. No que me diz respeito, as minhas 3 sobrinhas lindas preenchem quaisquer instintos maternais (parafraseando alguém, fico muito feliz quando chegam e fico muito feliz quando se vão embora) e a última árvore com que me cruzei revelou um profundo desprezo pelos meus esforços no sentido de lhe assegurar a fotossíntese. Agora no que toca a escrever um livro, posso dizer sem exageros que é um dos meus maiores sonhos.

No entanto, eu tenho um profundo respeito, quase reverência, pela arte da escrita. Para mim, escrever é um acto superior, um acto de inspiração divina, o resultado de uma mente superior. Não é qualquer um que escreve um livro. Ou pelo menos costumava ser assim. É verdade. Depois de anos a pensar que não era digna de escrever um livro, de sequer ter a audácia de pensar que me poderia comparar a um “Escritor”, afinal agora descubro que a solução sempre esteve à minha frente. Para escrever um romance Best seller só tenho de me tornar pivot de um telejornal (e escrever sobre o nosso passado, seja no séc. XIX ou nos anos setenta, seja em Angola, Brasil ou S. Tomé) ou apresentadora de um programa televisivo com grandes audiências (e escrever sobre amor traído, amor desiludido ou qualquer outro tipo de amor caracterizável com um adjectivo acabado em “ido”). E pronto: não há que temer a falta de talento, nem suportar as rejeições por parte das editoras, está assegurada a visita da musa inspiradora.

Sinceramente, eu até acredito que muita desta gente tenha algum talento, mas parece-me é estranho que todo ele se revele em simultâneo e com incríveis estratégias de marketing por trás. É ainda mais difícil de aceitar do que, de repente, todos os manequins e modelos portugueses tenham encarnado a Meryl Streep e falem da sua intensa vocação e profunda luta para “encarnar” personagens com a profundidade dramática de uma tábua de passar a ferro. Haja paciência!

Imagem: retirada do site http://www.pqn.com.br/

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sexta-feira, janeiro 09, 2009

A bomba caiu.

O nosso País está em crise. Desde sempre. À excepção da miragem de alguns anos dourados, à sombra do Cavaquismo, não me lembro de ouvir qualquer notícia que desse conta de um Portugal à beira da prosperidade económica. Nem mesmo da banal estabilidade. Sempre estivemos “em recuperação da má gestão dos governos anteriores”, ou “a trabalhar para nos aproximarmos dos nossos parceiros europeus” (na metade inferior da tabela, claro, ao estilo “corredor de fundo”), ou “a apertar o cinto para evitar os tempos difíceis que se aproximam”, etc, etc. Assim, apesar da natural tendência lusa para dramatizar as situações e fazer coro com os arautos da desgraça, a verdade é que nós, mais do que ninguém, estamos habituados a relativizar as “crises” e a fazer inveja a qualquer Michael Phelps quando se trata de nadar pelos mares agitados das finanças nacionais e internacionais. E se, por fora, gritamos e esperneamos “É a crise! Agora é que vai ser! Estamos bem lixados!”, por dentro vamos pensando «Lá está o Pedro outra vez a gritar “Lobo”, quando os leões já comeram o pobre animal há anos...».

Foi a isto que a minha geração se habituou: à política do “umas vezes melhor, outras pior, a gente vai-se safando”. Talvez por isso, quando em meados de 2008 nos vieram falar da crise, a nossa reacção foi de respeitosa distância. Sim, sim, a crise é mundial, temos muita pena dos Estados Unidos e da Islândia, mas nós sempre fomos uma espécie de parente pobre, aquele que é esquecido pelo resto da família (os Descobrimentos já lá vão e os valorosos barões assinalados devem andar às voltas nos túmulos a tentar perceber onde pára o Império Português) ou que faz por isso (II Grande Guerra? Não vai dar...). Acredito que mesmo aqueles que racionalmente sabiam que desta vez ia ser a doer, mantiveram a leve convicção interior de que o milagre do “raspão ao de leve” ou do “susto do caraças” podia voltar a acontecer (vejam-se as declarações do nosso Ministro das Finanças que, uns segundos antes de a crise ser formalmente anunciada, declarava que a mesma tinha acabado...).
Não aconteceu. E de repente é o subprime, são os juros, é a contenção de custos, são as falências, é a recessão, são as vacas magras, é tudo a correr mal e a promessa de que 2009 vai ser ainda pior... E este pior acontece quando a desgraça se abate perto de nós, quando vemos pessoas de comprovados méritos a serem dispensadas por falta de verbas, quando equipas de sonho se vêem amputadas de membros essenciais, quando começamos a temer pelos nossos próprios empregos e posições, a tão duras penas conquistados. Sem nos apercebermos, com pezinhos de lã, a pergunta vai-se impondo no fundo da nossa mente: “E agora?”.

O Zé Povinho foi despojado da ironia e mais parece o João Sempre-em-pé, balouçando perigosamente perto do abismo, onde nem o nome o vai salvar. E sabemos que a coisa está realmente complicada quando damos por nós nostálgicos em relação a tempos não tão distantes, com saudades do ramram das políticas nacionais, da desilusão provocada por dirigentes cada vez mais estrelas e cada vez menos profissionais, de uma economia que avançava aos soluços, dois passos para a frente quatro para trás, das pontuais histórias de sucesso e frequentes casos de acomodação. Em resumo, da vida que ia passando, com poucos sobressaltos e muitas críticas surdas, neste nosso pequeno rectângulo à beira-mar plantado.

Imagem: retirada do site www.teclasap.com.br

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segunda-feira, agosto 04, 2008

A importância de um ponto final.

Hoje estou virada para a pontuação. Desde que aprendi a escrever que sempre me fascinaram esses pequenos sinais que, aparentemente sem um sentido intrínseco, atribuíam tanto significado a uma frase ou palavra escritas.

Quando falamos cara a cara, é fácil transmitir os nossos sentimentos e emoções através de expressões faciais e corporais. Mesmo sem considerarmos o tom de voz, desde crianças que nos habituámos a interpretar as conversas pela postura do interlocutor. Por exemplo: palavras doces derramadas com uma inclinação de cabeça e um sorriso amarelo exalam ironia, um cerro franzido intensifica uma frase mais agreste, uma única sobrancelha elevada representa desconfiança ou uma interrogação surda, etc., etc. Mas quando escrevemos não temos qualquer auxílio visual ou auditivo. A maneira mais segura de indicarmos aos outros o que realmente significam as nossas palavras e frases, e uma das formas de enriquecermos a nossa retórica, é através da pontuação.

Ora, a vida profissional ensinou-me a moderar a utilização de sinais ortográficos. Cedo percebi que, quando se pretende gerar um comportamento, reticências deixam sempre demasiadas dúvidas no ar, e que um ponto de exclamação em qualquer comunicação laboral roça o insultuoso, sobretudo quando conjugado com um ponto de interrogação. Percebem?! Mas mais importante é a consciência de que a pontuação perde o seu poder quando usada em exagero, e, sobretudo, de que tende a ser o recurso de pessoas medíocres, sem capacidade para uma argumentação inteligente (normalmente usam e abusam de sequências de pontos de interrogação e exclamação, de forma absolutamente compulsiva, sem compreenderem que um simples ponto final tem muito mais significado).

Para mim, esta percepção assumidamente racional representa um dilema. Isto porque eu adoro pontuar. Se pudesse, pontuava tudo e mais alguma coisa. Passava o dia todo a colocar pontos de interrogação em frases afirmativas e reticências em frases exclamativas. Sobretudo, divertia-me a procurar orações em que pudesse acrescentar uma ou duas vírgulas, e a espremer mais meia dúzia de ideias entre uns bons parênteses. Mas sei que não posso, que não devo. Por isso, tento moderar a caneta (neste caso, o teclado) e, sempre que tenho um destes ataques, procuro lembrar-me que os momentos mais marcantes da nossa vida vêm seguidos de um bom e sólido ponto final (a intempestividade de um “Desaparece da minha vida!” ainda pode ser negociada, mas contra a determinação de um “Desaparece da minha vida.” não há argumentos possíveis).

PS – Numa aula de português, o professor pediu aos alunos para pontuarem a seguinte frase: “Uma mulher sem um homem não é nada”.
Os homens limitaram-se a colocar o previsível ponto final: “Uma mulher sem um homem não é nada.”
As mulheres pontuaram-na da seguinte forma: “Uma mulher. Sem, um homem não é nada.” (think out of the box).

Imagem: retirada do site pnepmacedo2008.blogspot.com

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segunda-feira, julho 28, 2008

O elogio do elogio


No que toca a elogios, eu sou a favor. Acho sinceramente que estes pequenos louvores que os outros nos dirigem são essenciais ao nosso bom funcionamento enquanto seres humanos completos e funcionais.

Mas, pelo que me é dado a observar, as atitudes dos indivíduos relativamente a este assunto oscilam entre 2 extremos: os avarentos e os exagerados.
- Os primeiros regem-se pela teoria do “elogiaste, estragaste”: quer se esteja com a aparência da Cindy Crawford num desfile de Versace, quer se tenha acabado de ser nomeada para o Prémio Nobel pela descoberta de qualquer teorema ainda desconhecido, a reacção é sempre a mesma. Perfeita e absoluta calma e apatia. A ideia aqui é a famosa “Tu já sabes que eu te acho linda / inteligente / simpática / inebriante. Porquê que preciso de estar sempre a dizê-lo?”
- Os segundos optam pela abordagem oposta: nem que uma pessoa venha directa de correr a maratona de Lisboa, nem que tenha ficado em último lugar nos testes de QI mundiais, nem que exiba a mais execrável das personalidades, estas pessoas têm sempre qualquer comentário positivo a tecer. E, por norma, são enaltecimentos rasgadíssimos, exagerados e absolutamente enjoativos para quem quer que os ouça.
Nem oito, nem oitenta. As pessoas sensíveis e minimamente inteligentes tendem a ficar magoadas na primeira situação e desconfortáveis e desconfiadas na segunda. O que eu defendo é o meio-termo.

Todos sabemos que é bastante mais fácil acreditar numa crítica que num elogio, e que as primeiras tendem a marcar bem mais que os segundos. É por isso que os elogios verdadeiros são tão preciosos, por isso valem tanto quando oferecidos na altura certa. Porque aquecem o coração e nos tornam um pouco mais fortes, porque ajudam a criar a carapaça que nos protege do dia-a-dia. E se é certo que podem deixar-nos algo “inchados”, também o é que asseguram uma breve felicidade num mundo que peca pela falta dela.

Imagem: retirada do site ficcino.wordpress.com/2007/05/

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segunda-feira, março 24, 2008

Aventuras ao volante

Há dias li uma afirmação com a qual concordo plenamente: “Qualquer português, por mais pacífico e cordato que seja, transforma-se num ser primitivo quando se senta atrás do volante.”. Recordando aquelas pessoas que, venham a que distância vierem, se nos vêem entrar numa rotunda em que teriam prioridade, aceleram desalmadamente para exercer os sues direitos (é assustador! Parece que querem vir conduzir o nosso carro), tenho de dizer que é mesmo verdade.

Uma vez que nos dispomos a conduzir, uma vez que sentimos a firmeza de um volante debaixo das mãos e o poder dos pedais sob os pés, assumimos uma nova personalidade. Uma personalidade forte, dominante e completamente egocêntrica. De repente, somos melhores que os outros, temos asas nos pés, um completo domínio das mãos e uma mente clara, limpa e empenhada num só objectivo: chegar ao destino o mais rápido possível. Enquanto encarnações de Fittipaldi, não percebemos como é que os azelhas que proliferam nas estradas ganharam o direito de lá estar. Bufamos, praguejamos e fintamos qualquer condutor que se encontre no nosso caminho, colamo-nos à traseira das viaturas que se atreverem a seguir numa velocidade 10 kms abaixo daquela que consideramos adequada e, quando finalmente conseguimos ultrapassá-las, num ângulo que desafia qualquer lei da geometria, lançámos um olhar de desprezo por cima do ombro aos pobres diabos que, obviamente, não foram bafejados pelo Deus da Condução.

Fiquei muito tempo a pensar que este comportamento totalmente anacrónico resultava de um descarregar de todas as frustrações que a vida actual provoca: um parceiro demasiado exigente, um chefe com pretensões a ditador, colegas conflituosos, etc. Mas hoje, finalmente, percebi a razão. A verdade é que os portugueses se estão a preparar para aquela altura em que vão ser chamados a cumprir uma missão, aquela altura que vai apagar para sempre a monotonia das suas vidas. Ávidos consumidores de filmes de acção americanos, estamos seguros de que um dia, quando menos esperarmos, alguém nos vai convidar para ir corajosamente até onde nenhum homem foi até agora, de que um agente secreto, cuja família tenha sido raptada por 5 colaboradores das melícias armadas de Israel, vai necessitar que o levemos com a maior rapidez até ao covil dos flibusteiros, de que o Peter Pan, tendo perdido temporariamente a sua capacidade de voar, vai depender de nós para apanhar o Capitão Gancho antes deste ser devorado pelo Tic-tac.

A verdade é que somos todos super-heróis em potência, mas o nosso poder especial só se revela ao volante de um carro, e tende a fazê-lo com maior intensidade ao som de uma banda sonora potente e bem ritmada. É então que todos os problemas ficam para trás e, não fossem os restantes carros que ocupam as pistas, estou certa que conseguiríamos mesmo voar.

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segunda-feira, março 03, 2008

A Bimbi

De repente, comecei a ouvir falar da Bimbi em todo o lado. O que é a Bimbi? É um robot de cozinha. E o quê que a Bimbi faz? Faz tudo.
Foi o que me disseram, assim mesmo: “…põem-se os ingredientes lá dentro e ela faz tudo.”. Minada pela curiosidade (e pela desconfiança), aceitei participar de uma demonstração. No entanto, com o meu habitual pessimismo, antes de lá chegar já tinha decidido que a tal máquina só tinha interesse para quem não sabe cozinhar, que era mais uma estratégia de marketing bem montada, e que nunca, nem que também fizesse as camas e lavasse as casas de banho, eu iria dar quase 1.000 Euros por ela.

Ora bem, confesso que tive de engolir alguns dos meus preconceitos. Para além de todo o espalhafato que se gerou em torno dela (não, não faz “tudo”), a Bimbi é muito interessante e, pareceu-me, um bom investimento para quem tem grandes famílias e pouco tempo. De facto, mais do que as receitas que permite executar sem grande esforço e de forma bastante saudável, a sua principal mais-valia reside no tempo livre que disponibiliza a quem a possuir. Hoje em dia, uma pessoa sabe que o bem mais precioso é precisamente o tempo, que parece nunca chegar para fazer tudo o que queremos. Foi por aí que a máquina me conquistou. Acaba com a ideia de que cozinhar implica estar com a barriga colada no fogão, à volta com colheres, tachos e panelas. Molhos, sopas, cremes e todas aquelas mistelas que temos de mexer em lume brando até engrossarem, tudo isso é feito automaticamente, com a ajuda de um ou dois apetrechos e, principalmente, um timer que nos permite ir laurear a pevide até que estejam prontos. Muito bom, muito prático, muito tempo que se ganha.

No entanto, eu gosto de cozinhar, e a Bimbi tira algum do prazer envolvido na confecção “caseira” dos alimentos. Passado o espanto inicial provocado pelas inovações da máquina (e pelo fantástico tempo, cuja falta tanto me atormenta), não sei se apostaria na sua compra. Eu gosto do “ram-ram” da cozinha, de cortar e laminar os alimentos, do cheiro dos refogados, carregadinhos de gordura. E, sobretudo, gosto demasiado dos 1.000 Euros depositados na minha conta, disponíveis para comprar tantas outras coisas...

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segunda-feira, dezembro 31, 2007

Os trintões e o ninho

Alguém mais experiente me disse há dias que eu ainda era uma adolescente. Do alto dos meus 33 anos julguei que, das duas uma: ou ele estava a gozar com a minha cara, ou eu finalmente tinha aprendido a dominar a fantástica arte da maquilhagem. Afinal, nenhuma das duas. Explicada a situação, revelou-se a seguinte teoria: no nosso tempo, a adolescência acaba aos trinta, já que esta é a altura em que os “jovens” finalmente saem de casa dos pais. Inteligente, não? Eu acrescentaria que muitos voltam a correr para lá quando se deparam com o crescente número de contas, recibos, facturas, juros, spreads, taxas, inflações, Euribors, e um rodopio de euros que teimam em escapar-se das carteiras.

Desabafo à parte, achei piada à ideia. É a verdade por trás da piada que me entristece. De todas as pessoas que conheço (e falo, obviamente, das da minha geração ou mais novas), nenhuma é completamente independente. Nenhuma conseguiu tudo o que tem por si só. Nem uma. Mesmo os que têm casa própria, às vezes com filhos, dependem da ajuda, mais ou menos velada, dos pais e/ou familiares. Não sei bem o que pensar disto. Sei que os meus pais casaram com 19 e 26 anos, e que cinco anos mais tarde tinham 3 filhos, uma casa e um carro. Mas, mais que tudo, tinham uma vida totalmente independente. Assim como a maior parte das pessoas da sua geração e anteriores. Não eram melhores nem piores que nós. A vida simplesmente acontecia, as pessoas trabalhavam e era possível. O quê que se passa hoje em dia?

- Somos nós que nos recusamos a voar?
.É tão bom ter a roupinha lavada e passada (que é como eu fico quando pego no ferro), tão bom não ter de se preocupar com as compras do mês (estranhamente, o frigorífico não se enche por si só e a fruta custa bem mais do que se poderia pensar), tão bom poder gastar horrores em roupas e saídas e ainda ficar com um extra para o pé-de-meia…
.E o que dizer de quem tem casa e faz dos pais respectivamente empregada doméstica e banco? A casa é outra, mas quem arruma, cozinha e paga as contas são as mesmas pessoas. Estranha independência, estranhos adultos.

- São os pais que acarinham esta dependência dos seus rebentos?
.Deve ser bom continuar a sentir-se necessário, essencial mesmo;
.Deve ser bom poder continuar a opinar sobre a vida de quem nos é mais querido, poder continuar a dizer aos seus amigos “ele/a ainda é um/a miúdo/a” e “precisa de mim”;
.Numa versão mais agressiva, poder dizer aos amigos dele/a “ele/a não consegue safar-se sozinho/a” e “dele/a não, meu.”.

- É a sociedade, que castra os sonhos e vidas dos seus constituintes, impondo-lhes tributos económicos e regras sociais que os escravizam até ao final dos seus dias?

Tristemente, parece-me ser uma mistura dos três. E não vislumbro solução à vista. Queria ver um futuro diferente, mais parecido com o que projectava aos 15 anos. Não queria fazer parte da geração que aos 30 ainda é adolescente. Mas também não queria ter de pagar a minha casa até aos 70.
E já não me lembro a que foi exactamente que achei tanta piada.

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quinta-feira, janeiro 05, 2006

A reciclagem e os mini-contentores

Eu tento cumprir os meus deveres cívicos de maneira regular, apelando a uma certa auto-disciplina, que se converte cada vez mais em hábito espontâneo. Correndo o risco de cair num lugar comum, gosto de pensar - e sentir - que estou a fazer o que posso para que o mundo evolua num sentido melhor do que aquele que se antevê. Mas devo confessar que os mini-contentores, supostamente para uso doméstico, me deixam louca. Porquê que só têm 3 divisões? Ok, eu sei que se recicla plástico, papel e vidro, mas e o lixo puro e duro? Não podia ser um "4 em 1"? Será que para o lixo temos de ter outro contentor? É que a minha casa não é assim tão grande... e eu sou um pouco compulsiva no que toca a arrumações e estética decorativa ... a ironia é que acabo sempre a guardar o vidro fora do dito "vidrão"... :(

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