domingo, novembro 01, 2009

Golda não, folte.

Em miúda sempre fui gorda. Não era gordinha, nem cheiinha, nem fofinha, nem forte (não, mãe, não era forte!). Era mesmo gorda. Gorda ao ponto de nas lojas nada me servir e de ter de comprar roupa números acima da minha idade, gorda ao ponto de deixar umas calças de ganga deformadas com o volume da minha barriga, gorda ao ponto de me chamarem Moby Dick na piscina. Já perceberam a ideia, não?


Durante um certo tempo eu não me apercebi que era assim tão gorda, nem de que isso era assim tão mau. Afinal, até ali sempre tinha visto pessoas de todos os feitios e formatos viverem em conjunto de forma relativamente pacífica e sem grandes conflitos (ou pelo menos, não conflitos que resultassem da sua aparência física). Vivia feliz no meu mundinho de comida condimentada e doces saborosos, numa inocência condizente com os cerca de 5 ou 6 anos que devia ter. Até ao dia em que, num recreio de escola, uma besta qualquer (leia-se “o meu vizinho da frente e melhor amigo na altura”) resolveu chamar-me baleia, ao mesmo tempo que me atestava um murro e alguns empurrões que me deitaram por terra. Tudo com vários outros cretinos (não sei se já repararam que, além de serem “a melhor coisa do mundo”, as crianças são verdadeiras idiotas, mais cruéis que Mussolini e com o individualismo de um rebanho de ovelhas) a rirem-se da piada. Claro que no dia a seguir, servindo-me do facto de ele ter a consistência de um palito (certamente já ouviram falar da dupla “Bucha e Estica”), além de lhe dar um valente atesto de pancada diante do mesmo público do dia anterior, ainda lhe coloquei a alcunha que o havia de perseguir durante toda a primária: Sacholas (escusado será dizer que o menino tinha os dentinhos da frente um pouco proeminentes…). Naqueles dois dias aprendi duas lições: não se pode confiar em ninguém e “não te zangues, vinga-te.”.


O problema é que essa questão ficou resolvida, mas o trauma de ser gorda nunca mais me largou: dos 10 anos em diante foram dietas atrás de dietas, oscilações de peso entre o “boazona” e o “desvia-te que estás a tapar o sol”. Eu bem queria ser racional (ou inteligente) o suficiente para o sacudir, mas confesso que é complicado. Desde que comecei a trabalhar, a actividade tem ajudado a conseguir comer mais ou menos o que quero (pelo menos numa das refeições do dia ou dia sim dia não), mas mais 1 ou 2 kg na balança e lá vou eu jantar cereais ou só uma peça de fruta, enquanto experimento todos o tipo de cremes, actividades físicas e milagres estéticos para ajudar. O que é certo é que, por muito que me digam que estou dentro do peso normal (atenção que eu não sou nada fã de mulheres magrinhas: gosto muito de curvas e é isso que acho sensual: peito, anca, rabo, tudo no sítio) e que os números da roupa confirmem, de vez em quando olho para o espelho e vejo lá aquela miúda gorducha.


Bem, tudo isto para dizer que nos últimos dias aconteceram duas coisas que quase me levaram novamente a esse mundo de insegurança.

Primeira: vou a um gabinete de estética novo (usufruir da oferta de uma porcaria de um cartão qualquer a que aderi) e a “técnica”, mirando-me de cima a baixo no início da “consulta”, pergunta: “Excesso de peso, tem?”. Devo ter ficado a olhar para o animal esquelético durante cerca de meio segundo, a pensar para mim mesma “Fome, passas?”, para depois responder entredentes: “Não.”.

Segunda: vou comprar umas meias de descanso a uma parafarmácia. A empregada, simpática, pergunta “Altura e peso? Só para calcular o tamanho necessário…”. Respondo eu: “1,65m, 53kg.”. E vai ela: “63kg?”. Só me apeteceu arrancar-lhe o sorriso da cara à bofetada. 63kg, grande asno? 63 kg? Eu pareço que tenho 63 kg?!

Isto tudo no espaço de 1 semana. Felizmente, passada a fúria, tive o distanciamento de pensar “Porra, então eu visto um 36 - ou pelo menos, quase sempre… - e estas cabras a dar-lhe?? Querem saber mais? Foltam-se vocês!”

Imagem: retirada do blog filomena-emsegredo.blogspot.com

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segunda-feira, julho 06, 2009

Detalhes

Eu gosto de detalhes. Muito. Tenho plena noção da importância da floresta, mas não consigo deixar de analisar cada uma das árvores que a compõem. E apesar de saber que aplico esta característica em várias áreas da minha vida (o que, por vezes, me faz pensar que tenho uma personalidade algo obsessiva-compulsiva), onde ela mais se manifesta é na análise física que faço de mim mesma e das outras pessoas.


No que me toca, o ponto extremo foi na adolescência, em que quase enlouqueci a minha mãe com teorias que roçavam a psicose. Cada semana havia uma novidade: “O meu nariz não é proporcional.” (facto quase comprovado mediante uma análise empírica efectuada diariamente), “Queria ter os dedos dos pés todos alinhados.” (a que se seguiu a minha conjectura de que as pessoas não deviam ter dedos nos pés, ficando melhor servidas com umas extremidades semelhantes às dos patos), “Não gosto nada destes ossinhos em forma de bola a meio dos ombros.” (nisto saí ao meu pai), “Porquê que eu não tenho os ossos da clavícula visíveis?” (talvez porque na altura tinha cerca de 13 quilos a mais… agora já se vêem), “As minhas pernas em baixo parecem dois palitos.” (o que adorava ter umas barrigas das pernas gordas e torneadas…), etc., etc. Agora já aprendi a descartar estas minudências (até para não ficar completamente biruta), mas isto não significa que não continue exaustivamente à procura de cabelo em ovos.


Quanto aos outros, o processo é idêntico. Passada a primeira impressão, durante a qual o escrutínio é feito a nível geral, eu foco sempre a minha atenção nos detalhes (caso sejam dignos de interesse, por si só ou pela pessoa em causa). Posso não saber dizer se alguém tinha vestido um casaco Versace com brilhantes incorporados, mas sei se o nariz estava alinhado com o queixo e se o tamanho do tronco era proporcional ao das pernas; posso ter achado determinado indivíduo pouco atraente, mas saber que as suas mãos são cuidadas, com dedos elegantes e um aspecto absolutamente irresistível. Partindo destas análises (meramente físicas, sem considerar outras características bem mais importantes e que condicionam de forma determinante a nossa percepção de alguém - não esquecer que “Quem feio ama bonito lhe parece.” ou, na versão inglesa, “Beauty is in the eye of the beholder.”) acabei por definir 5 tipos distintos de aparência (que depois se desdobram em inúmeras combinações):

1 - Pessoas que apresentam traços equilibrados e proporcionais, com a sorte de ainda possuírem determinadas características faciais fortes e belas: olhos rasgados, bocas delineadas, pescoços altos, cabelos fartos, etc. (são aqueles sortudos em quem as partes e o todo são igualmente perfeitos - sim, Brad e Angelina, estou a falar de vocês).

2 - Estas são as pessoas nas quais uma das partes potencia as outras e determina o resultado final (quando os traços já são algo interessantes e equilibrados, mas depois uns olhos fantásticos aumentam o impacto, elevando o indivíduo ao patamar da beleza).

3 - As pessoas que no geral são atraentes, mas nas quais nenhuma das partes sobressai especialmente (nem o nariz, nem os olhos nem a boca são particularmente definidos, intensos ou torneados, mas a conjugação dos 3 resulta numa face interessante, atraente, sexy).

4 - São as pessoas nas quais uma das partes compensa as outras, influenciando o todo (do género “Ela têm um nariz enorme, mas os olhos são espectaculares.” - por norma, quando digo isto, há sempre uma alminha que contrapõe “Está bem, mas não deixa de ser horrorosa.”).

5 - São aquelas pessoas em que nada parece bater com nada, em que não existe qualquer equilíbrio estético, nem qualquer detalhe favorável à vista (as habituais “Não tem ponta por onde se lhe pegue.”).


Como se pode verificar, este é um assunto que me interessa e, sendo assim, acaba por influenciar as minhas relações. Tal como sou perfeitamente capaz de me apaixonar por um pequenino detalhe do corpo de alguém, também sou capaz de me “desapaixonar” da pessoa toda devido a esse mesmo detalhe. E então tudo isto para quê? Só para dizer que o meu anjo tem 2 destes detalhes que há muito me fascinam: uma boca incontornável (que de “detalhe” não tem nada: carnuda, suculenta, promessa das mais intensas delícias) e umas pequenas obras de arte sob a forma de orelhas (eu adoro orelhas! Mas têm de ser como as deles: redondinhas, torneadas, hipnóticas, perfeitas espirais de búzio marítimo… um encanto). E, detalhe a detalhe, lá vou tendo com que me entreter.


Imagem: retirada do site www.allposters.com (“A aparição da face de Afrodite”, de Salvador Dali)

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terça-feira, junho 30, 2009

Cuidado com o que desejas

Eu e o meu cabelo temos uma relação de amor/ódio: ele ama deixar-me louca e eu odeio que ele o faça.

Eu sempre quis ter um cabelo com as seguintes características (por ordem de preferência): grosso, suave, com ondas naturais, preto (ou ruivo: very hot!) e comprido. Claro que, em linha com o que acontece com tudo o que eu desejo na vida, fui presenteada com um cabelo fino, liso e loiro (apesar de eu achar que é castanho claro, todos os cabeleireiros fazem questão de me informar que a base do meu cabelo é loira - nomeadamente quando eu insisto em fazer madeixas acobreadas, na tentativa de ficar com um aspecto “ruivo”). Salva-se o facto de ser suave e comprido. Mas claro que, sendo meu, é também cheio de personalidade e vontade própria: apesar de toda a suavidade, não há quem o faça enrolar para dentro se ele achar que fica bem é para fora, nem quem o consiga pentear quando ele cisma de se enredar num enorme novelo de nós.


Como se pode calcular, com esta matéria-prima, é-me sempre muito complicado mudar de estilo, arriscar, encontrar um novo look. Mas, de quando em quando, eu tento. Sempre num cabeleireiro da minha confiança, sempre depois de uma enorme fase de “Estou farta do meu cabelo!”, sempre quando já nem posso olhar para o espelho. Da última vez que o fiz, apostei numa franja que obteve bastante sucesso, e que apenas foi abandonada porque um redemoinho no canto esquerdo da testa me dava um ar de Tintim sempre que não tinha acesso a um secador (além disso, confesso que odeio usar secadores…).


Desta vez, meses após a última visita ao cabeleireiro (também odeio ir ao cabeleireiro) e com o Verão a dar ares da sua graça, deu-me a vontade de fazer algo diferente. Sábado de manhã, levantei-me e rumei à tesoura. Ainda pelo caminho, decidi que não chegava a habitual aparadela em que nunca ninguém repara, que o cabelo estava muito pesado e sem graça, e que o ideal seriam umas madeixas, para alegrar os meus dias.


Conversa entre mim e o cabeleireiro:

Ele (ar aborrecido, farto de saber que eu sou uma chata que nunca quero fazer nada diferente) - Então, o quê que vai ser?

Eu (a medo) - Não sei bem, mas queria algo diferente. Estou cheia deste cabelo! Estava a pensar numas madeixas…

Ele (só para me deixar ficar mal) - De que cor?

Eu (esperançada que passasse) - Não sei… estava a pensar acobreadas… O quê que acha?

Ele (sobrancelha levantada… ar de “Outra vez?!”) - Eu acho que têm de ser loiras… É a sua base…

Eu (suplicante) - Mas eu uma altura fiz umas acobreadas, juntamente com as loiras, e resultou bem, discreto…

Ele (cedendo, brilho estranho no olhar) - Podem fazer-se umas ruivas, para dar uns laivos de cor…

Eu (vitória!) - É, pode ser…


Cerca de 2 horas depois (sim, 2! Por isso é que eu odeio ir ao cabeleireiro), apanhei o susto da minha vida. Uma vez tiradas as pratas, lavado e desembaraçado o cabelo (operação que envolveu o uso de um creme e uma espuma especiais de corrida, só para que a minha cabeleira se dignasse a deixar passar o pente), e quando me preparava para enfrentar o corte, resolvi levantar os olhos da revista em que estava embrenhada e olhar para o espelho. Surpresa! A devolver-me o olhar estava a sósia de uma cabeleireira enlouquecida, completa com várias madeixas loiras e algumas (demasiado visíveis) madeixas vermelhas. Não acobreadas, não ruivas…vermelhas, mesmo! Ia caindo para trás. Mas não caí: aguentei firme até estar de cabelo bem cortado (“Apare só…”, que para loucura já basta a cor) e penteado.


Conversa final:

Ele (sorriso de orelha a orelha) - Então, o que acha?

Eu (sorriso amarelo) - Está um bocadinho puxado…

Ele (meio sorriso) - Isso depois disfarça com as lavagens.

Eu (sorriso conformado) - Pelo menos está diferente…

Ele (sorriso - que eu li como - irónico) - Lá isso está!


E pronto, cá estou eu, com um ar completamente diferente, a condizer com as cores do Verão, ainda a habituar-me ao novo visual. As boas notícias são que desta vez toda a gente reparou que eu tinha ido ao cabeleireiro.


Imagem: retirada do site www.online-literature.com

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terça-feira, junho 09, 2009

O que eu queria viajar daqui para fora

Eu adoro viajar. Por mim andava sempre no laréu, a apanhar aviões, táxis e metros, a visitar novas e excitantes cidades e civilizações, a visitar monumentos, museus e restaurantes, sempre acompanhada do meu Guia American Express.


Por volta dos meus 13 anos descobri que, com alguns trocados, era possível ir visitar aquelas terras que tanto me fascinavam nos filmes e livros. E, vai daí, não parei mais. Durante 15 anos foi um vê-se-te-avias de bilhetes de avião, reservas e câmbios; passeei imenso, diverti-me mais ainda e procurei conhecer o máximo possível de todas as culturas que visitei. Mas, aos 28 anos perdi a minha companheira de viagem (que, por razões nobres, teve de moderar o ímpeto descobridor da alma portuguesa). A partir daí fui-me acomodando e as férias foram sendo passadas sem grandes emoções, em sítios mais ou menos familiares.


Nos últimos tempos tive o prazer de recuperar o fascínio por conhecer coisas novas, por falar com pessoas diferentes, por sair do mundinho pequenino que nos espreme os horizontes. E a febre voltou a arder por baixo da pele: o que eu quero mesmo é conhecer o mundo. O mundo todo, das ilhas paradisíacas da Tailândia à loucura cosmopolita de Nova Iorque. Quero cheirar os campos de flores na Holanda e saborear um churrasco nas Pampas. Quero caminhar pelas montanhas do Tibete, enrolada num bom cobertor, e nadar entre tubarões na Nova Zelândia (ok, aqui talvez esteja a exagerar um pouco…).


Enfim, o que eu queria mesmo era matar a rotina que me está a espartilhar a alegria, a rasgar cada réstia de potencial e a anular a pessoa que gostaria de ser. Gostava imenso de acordar um dia com a coragem (e com a dose de inconsciência necessária) para largar tudo o que não interessa, pegar em tudo o que realmente me faz falta e partir. Afinal, nunca ouvi nenhum moribundo queixar-se de que devia ter passado mais tempo no escritório ou fechado em casa.


Imagem: férias Munique 2009

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segunda-feira, maio 18, 2009

Aperta aqui, estica ali

Cócegas nas costas. Provavelmente a minha actividade preferida em todo o mundo. Não consigo bem explicar porquê, mas parece que cada célula epidérmica das minhas costas está ligada a um qualquer centro de prazer instalado bem lá no fundo do meu cérebro. Sou tão obcecada com isto que, sempre que penso em ganhar o Euromilhões (outra coisa que me traria extremo prazer), penso em contratar uma pessoa única e exclusivamente para me fazer cócegas nas costas durante 1 (vá lá, 2) horas por dia.

Na impossibilidade de realizar este sonho nos tempos mais próximos, optei pelo sucedâneo: as famosas massagens. A febre começou com uma prenda iluminada, na forma de uma fantástica massagem com pedras quentes, no Hotel Sheraton (eu sei que já falei disto, mas é um tema que me é querido). Depois de 2 horas de maravilhoso relaxamento, em que cada pedacinho de pele agradecia aos deuses ter sobrevivido para experimentar aquilo, decidi que merecia uma daquelas sessões pelo menos uma vez por mês. Claro que, depois de uma estimativa orçamental, revi a minha decisão e passei ao plano B: o Sheraton foi substituído pelo meu Centro de Estética em Braga (ou seja, pela minha esteticista) e a massagem com pedras quentes de duas horas por uma massagem anti-celulítica de uma.

Está bem que não é a mesma coisa, mas esta massagem mensal, apesar de evidenciar parcos resultados (segundo me dizem, tinha de parar de ser forreta e fazer pelo menos uma sessão por semana, segundo eu lhes digo – e à minha consciência –, vai servindo para manutenção), inclui um ambiente com aroma e banda sonora relaxantes, uma técnica simpática e uma atenção especial às minhas costas. E sabe mesmo bem.

Imagem: retirada do site www.webluxo.com.br

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segunda-feira, abril 06, 2009

Maria chorona

Antigamente contava pelos dedos de uma mão as pessoas que me tinham visto chorar, agora tenho de fazer contas às que ainda não me viram fazê-lo. Não sei bem o que se passou, mas entre a saída da adolescência e a entrada na vida adulta, alguma coisa mudou em mim. Alguma coisa que me parece estar a intensificar-se consideravelmente com a idade.

Há muitos (tantos…) anos atrás, eu fazia gala de nunca chorar à frente de ninguém. A minha ideia era esta: toda a gente quer bater no ceguinho, e se uma pessoa se mostra fragilizada à frente de quem quer que seja, essa pessoa vai, invariavelmente, ver-nos como alguém fraco e tentar trepar. Por isso mesmo, nessa altura só duas ou três pessoas bem próximas (leia-se “mãe” e “irmã”) viram lágrimas nos meus olhos.
Ora, isto funcionou muito bem enquanto os meus únicos problemas se limitavam às ocasionais chatices com amigas, às desilusões amorosas com o garanhão do liceu e aos conflitos que as saídas à noite desencadeavam em casa. A partir do momento em que pude ser considerada oficialmente adulta, a coisa começou a mudar: fosse um stress incontrolável no emprego, algumas situações pessoais angustiantes ou problemas incontornáveis numa relação íntima, o certo é que as lágrimas começaram a aparecer com bastante mais frequência. E de repente eu, que tinha por hábito caracterizar-me como uma pessoa “forte”, vi as minhas defesas caírem pouco a pouco, deixando expostos alguns sentimentos.
De início preocupou-me, achei que estava a ficar fraca, descontrolada, demasiado “gaja”. Irritava-me saber que esta ou aquela pessoa já me tinham visto chorar, que não conseguia corresponder à imagem que eu própria tinha construído para mim. Neste momento, acho que se continuasse e fazer jogos e resistências, mantendo todo o sofrimento fechado dentro de mim, ia acabar com o coração azedo e a alma em fanicos (já assisti a alguns casos pessoalmente). E como não tenho outro remédio senão aceitar que a minha natureza é esta (entre a pedra e a água, entre o calor e o frio, entre o dia e a noite, entre sorrisos e choros), passei a preocupar-me bem menos com o que os outros vão ou não pensar, e a preocupar-me bem mais comigo. Assim, tenho chorado sempre que algo o justifica, sempre que o meu coração sofre por alguma coisa: seja porque a vida afasta alguém importante (nos últimos tempos tem-no feito com considerável regularidade), seja porque num filme morre uma personagem adorável (as últimas lágrimas dedico-as ao “pior cão do mundo”).

E de uma coisa tenho a certeza: não são meia dúzia de lágrimas que mostram a essência de alguém, nem são elas que definem a sua força ou fraqueza. O que importa são as nossas atitudes e a postura que assumimos, o carácter que revelamos nas alturas certas. Com choros ou sem eles, o que não devemos é permitir que abusem ou tripudiem de nós. Afinal, se o camelo não se baixasse não lhe punham a carga em cima (ainda que estivesse a chorar copiosamente…).

Imagem: retirada do site noticiasimpossiveis.wordpress.com

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segunda-feira, novembro 10, 2008

Estou além

A minha mãe acusa-me constantemente de ser uma insatisfeita. Após o meu rol de queixas habituais, ela costuma dizer: “Oh rapariga, tu nunca estás contente com nada.”, para acrescentar logo a seguir: “Sais ao teu pai.”. E é verdade. Por muito bem que a vida corra, eu consigo sempre encontrar forma de achar que podia correr bem melhor. Rege-me a firme convicção de que deveria estar permanentemente a fazer bem mais, a usufruir bem mais, a ter acesso a bem mais. No fundo, a ser bem mais feliz. Por causa desta maneira de ser, já me convenci que nunca vou conseguir ostentar aquele ar de calma satisfação, de realização plena, que caracteriza algumas pessoas. É que esta postura face à vida flúi do interior, não resulta de qualquer factor externo. E eu não sou assim. Eu bem tento ser mais como a minha mãe, aceitar a vida, reagir às adversidades, procurar fazer o melhor possível dentro das circunstâncias, tentar ver o melhor das coisas e das pessoas. Mas qual quê? Saio ao meu pai, que tendo tido os seus momentos de felicidade, nunca foi verdadeiramente feliz. Porquê? Porque nunca se conformou, nunca se deu a hipótese de ver que a vida não é só má, nunca assumiu que tinha inúmeras coisas boas ao seu redor.

Deste meu estado de espírito nasce o nome do meu blog, apoiado numa música dos anos 80. Esta música, que ouvi a primeira vez aos 13 anos, sempre foi uma das minhas favoritas, uma das que melhor reflectiu os meus sentimentos. E ainda hoje, com os devidos ajustes, continuo a achar que foi escrita para mim.

Assim, resolvi fechar o post com as palavras de alguém que conseguiu expressar, melhor do que eu alguma vez conseguiria, um estado de insatisfação permanente.

Estou além (António Variações)
Não consigo dominar
Este estado de ansiedade
A pressa de chegar
P’ra não chegar tarde
Não sei de que é que eu fujo
Será desta solidão
Mas porque é que eu recuso
Quem quer dar-me a mão

Vou continuar a procurar a quem eu me quero dar
Porque até aqui eu só

Quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi
Porque eu só quero quem
Quem não conheci
Porque eu só quero quem
Quem eu nunca vi

Esta insatisfação
Não consigo compreender
Sempre esta sensação
Que estou a perder
Tenho pressa de sair
Quero sentir ao chegar
Vontade de partir
P’ra outro lugar

Vou continuar a procurar o meu mundo, o meu lugar
Porque até aqui eu só

Estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde eu não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou
Porque eu só quero ir
Aonde não vou
Porque eu só estou bem
Aonde não estou

Imagem: retirada do site miryadd.zip.net

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segunda-feira, outubro 27, 2008

…e o samádhi

Continuando na senda do post anterior, proponho-me agora avançar um pouco na escala espiritual e abordar a prática do Yôga.

Yôga
Há mais de 5.000 anos, a Noroeste da Índia (no Vale do Indo), um famoso bailarino improvisou alguns movimentos que, graças ao seu virtuosismo, se revelaram extremamente sofisticados e, por isso mesmo, lindíssimos (tratava-se de uma linguagem corporal inspirada na dança). A arrebatadora beleza da técnica levou as pessoas a pedir ao bailarino que transmitisse os seus ensinamentos. Após a sua morte, os discípulos mais leais preservaram a sua arte intacta e assumiram a missão de retransmiti-la, compreendendo a importância de se tornarem também instrutores e de não modificar nada do ensinamento genial do primeiro Mentor. Essa arte ganhou o nome de integridade, integração, união - em sânscrito, Yôga – e o seu fundador ingressou na mitologia com o nome de Shiva e com o título de Natarája, Rei dos Bailarinos.

Voltando aos nossos dias, e de uma forma resumida, podemos dizer que o Yôga é uma actividade essencialmente prática que visa atingir o samádhi. E o que é o samádhi? Etimologicamente trata-se de uma palavra em sânscrito que significa “êxtase”, fisicamente é o estado em que os yôguis conseguem suspender quase totalmente a respiração e a circulação sanguínea (numa morte aparente), espiritualmente trata-se de alcançar a última etapa do sistema Yôga, uma espécie de hiper-consciência em se atinge a suspensão e a compreensão da existência, resultando na comunhão com a mãe universal.
A vertente do Yôga que eu pratico é o chamado SwáSthya Yôga, que compreende oito tipos de técnicas (mudrá, pújá, mantra, pránáyáma, kriyá, ásana, yôganidrá, samyama – esta é a única fonte de stress do Yôga: decorar a nomenclatura associada…), destinadas a actuar em oito áreas distintas, promovendo um aperfeiçoamento multilateral. Os efeitos sobre o corpo, a sua flexibilidade, fortalecimento muscular, aumento de vitalidade e administração do stress fazem-se sentir rapidamente. Mas para despertar o nosso poder espiritual primordial (kundaliní), desenvolver a nossa vertente paranormal e atingir o samádhi, é necessário um investimento de muitos anos de dedicação intensiva.

É por isso que, de momento, eu me satisfaço com o percurso (os resultados a nível físico e emocional), sem pensar demasiado no objectivo último (a tão ansiada “iluminação espiritual”). E se estou satisfeita. Diria mesmo que estou algo viciada na prática desta actividade, que se tornou para mim uma forma de tonificar o corpo e, simultaneamente, de relaxar o espírito. Claro que a paz e satisfação que sinto no final de cada sessão nem sempre têm efeitos duradouros, mas espero que com o tempo (e suficientes horas de meditação) aprenda a controlar certos ímpetos assassinos e a encarar a estupidez humana com alguma compreensão e benevolência. Até lá, vou-me contentando com o facto de já conseguir fazer uma inversão sobre a cabeça e com o sorriso de serenidade que me acompanha sempre que saio da sala de prática.

Nota: e não é que, à semelhança da dança do ventre, também o Yôga surgiu numa civilização matriarcal (tântrica)?

Imagem: retirada do site intensidade.wordpress.com

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segunda-feira, outubro 20, 2008

Entre a sedução…

Uma vez inserida no universo oriental do Arabesk, não tenho feito outra coisa senão encher a paciência de toda a gente com narrativas elaboradas sobre posições invertidas de relaxamento e requebros de anca. Para se perceber o fascínio que este assunto tem sobre mim, nada melhor do que uma visita guiada a ambas as actividades que pratico actualmente (feita em 2 fases consecutivas, que tudo o que é bom faz-se esperar).

A dança do Ventre
É uma dança do Período Matriarcal e está relacionada com os cultos primitivos em honra da Deusa-Mãe. Apesar da controvérsia que rodeia o tema, podemos afirmar que as suas manifestações primitivas ocorreram no Antigo Egipto, Babilónia, Mesopotâmia, Índia, Pérsia e Grécia, e visavam a preparação das mulheres para se tornarem mães, através de ritos religiosos (é possível que alguns dos movimentos, como as ondulações abdominais, tivessem por objectivo ensinar como reagir às contracções ocorridas durante o parto). Provavelmente por este motivo, a dança do ventre era considerada um ritual sagrado, sendo os homens excluídos de todo o cerimonial. Com o passar do tempo foi sendo incorporada no folclore árabe e, já na nossa era, acabou por conquistar o Mundo Ocidental.

Ora, apesar das suas origens indiciarem rituais sagrados e movimentos pré-natais, a dança do ventre desperta em mim fantasias de estonteantes odaliscas vestidas de organdi, viris sultões de retorcidos bigodes e haréns plenos de sensualidade e intriga (a culpa é de uma série os anos 80 e do Omar Sharif). Adoro andar de calças saruel e barriga ao léu a tentar contorcer-me ao som de uma batida onomatopaica e hipnotizante, adoro simular fluidez enquanto tento coordenar pernas e braços em movimentos rocambolescos com nomes como “O Círculo da lua” e “Oitos invertidos.”, e adoro que, naquela hora e meia, o corpo se concentre unicamente em utilizar músculos que eu nem sabia existirem.

Depois, há a expectativa que rodeia toda a aplicação prática dos conhecimentos adquiridos… Imagine-se uma noite pintada em tons de vermelho e açafrão. No ar o aroma da canela e do âmbar, agitados por uma suave brisa que ondula cortinas de organza. O licor espesso e adocicado repousando em cálices berberes. De repente, rompendo a semi-obscuridade de velas estrategicamente colocadas, um corpo feminino desliza ao som de uma melodia sistemática e hipnotizante: “Tam-tam-tam-tam – tum – tam. Tam-tam-tam-tam – tum – tam “. Sob um olhar masculino, movimentos sincopados de anca intensificam intenções, o tilintar das moedas e pulseiras espicaça o desejo, as ondulações dos braços e peito simulam carícias e toques que estão para vir. É um ritual intenso, quente e sensual, que vai enlouquecendo os sentidos e deve ser partilhado a dois.

Assim, e apesar de concordar com o regresso em força do Período Matriarcal (Women unite!), tenho de marcar posição e dizer que nestas coisas a presença de um homem é essencial. Pode dizer-se que, quando o corpo de uma mulher aprende a contorcer-se desta maneira, é bom que outros valores se levantem.

Imagem: retirada do site www.agal-gz.org

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segunda-feira, outubro 06, 2008

Arabesk

Há cerca de um mês atrás, por obra do destino, fui parar à porta de um estúdio de cultura hindu-arábica, o “Arabesk”. Sabendo que tendo a chamar destino ao meu inexistente sentido de orientação, percebe-se que quando lá cheguei já estava algo esbaforida, desesperada e a tentar perceber porquê que, vivendo em Gaia há 5 anos, andava às voltas pela cidade e arredores à procura do caminho para casa. Ora, nada melhor para acalmar a pevide do que reconhecer o caminho e, em simultâneo, dar de caras com uma sinalética que anuncia aulas de Yôga.

Considerando as recomendações dos meus médicos relativamente à falta de actividade física na minha vida, e tendo presente que os ginásios habituais parecem não se conjugar muito bem com o meu trabalho (depois de levar pancada o dia todo, não me apetece andar saltitar de lycra e rabo de cavalo, atirando pontapés para o ar no meio de um grupo de personagens saídas do Flashdance… no máximo, apetecia-me era encaixar um ou dois bofetões nalgumas personagens que habitam o meu dia-a-dia), decidi então tentar algo novo. Foi assim que entrei no dito estúdio e descobri que, atrás do nome pomposo, se esconde um pequeno espaço de decoração exótica, no qual um casal divide entre si o ensino do Yôga e da Dança oriental. Após duas aulas de teste, e incentivada pelos horários laborais com que tenho sido agraciada, de imediato me rendi à ideia de começar a praticar ambas as modalidades.

E devo dizer que esta foi das melhores decisões que tomei nos últimos tempos: as sessões (sobretudo de Yôga) rapidamente se tornaram numa das poucas coisas pelas quais anseio e pelas quais tenho verdadeiro interesse. Até receio falar muito sobre isto, não vá estragar tudo. É que eu sou de entusiasmos (ballet, piano, aeróbica, musculação, full contact, natação…you name it, I did it), mas estas incursões ao mundo oriental têm-me feito tão bem, a nível físico e emocional, que espero sinceramente manter esta recém-descoberta ligação a actividades um pouco mais espirituais.

Imagem: retirada do site www.arabesk.com.pt

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segunda-feira, setembro 22, 2008

Letras e Fitas

Duas das minhas mais avassaladoras paixões na vida são a Literatura e o Cinema. Encaro estes 2 temas como se fossem complementares, como se um ajudasse a compreender e a amar o outro, como se a um ponto ambos se pudessem cruzar, formando um só.

Assim, eu adoro ir ver os filmes que resultaram de um livro que apreciei e, apesar disto causar estranheza à maioria das pessoas, acontece-me frequentemente comprar o livro que originou determinado filme. Para mim, ambas as situações fazem perfeito sentido. É que eu gosto de ver se o realizador interpretou da mesma forma que eu as personagens e situações imaginadas pelo autor, se conseguiu transpor para a tela as imagens, aromas, desejos e emoções que eu absorvi durante a leitura. Sim, porque quando um livro me entusiasma, eu começo inevitavelmente a moldar o respectivo filme, completo com casting, reperage, banda sonora e tudo. Na minha mente, eu sei perfeitamente quem deveria interpretar o galã espadaúdo de olhos melosos ou a jovem sedutora de curvas estonteantes, sei exactamente qual o local em trocariam os primeiros olhares de desejo, e quase oiço em surround a música sensual que serviria de cama à sua paixão.

No entanto, devo dizer que (na maioria das vezes) o livro é inevitavelmente melhor que o filme: o enredo mais envolvente, as personalidades mais ricas, as relações mais intrincadas e perturbadoras. Eu até percebo que, por questões de intensidade ou ritmo de filmagem, tenha de se eliminar ou acrescentar uma/duas situações ou personagens. Agora, não posso perceber é que desapareçam, sem qualquer explicação plausível, linhas de parentesco completas e situações absolutamente inebriantes e inesquecíveis (um dos meus maiores desgostos foi assistir à versão cinematográfica de “A casa dos espíritos”… nem os actores consagrados e o solo português conseguiram anular a dor de ver esfarrapada a obra de Isabel Allende).

Excepção feita ao único filme que, para mim, fez jus à obra de que germinou (apesar de, pontualmente, também se ter afastado da mesma). Com um casting absolutamente inquestionável, cenários de uma grandiosidade assombrosa, e interpretações de tirar o fôlego, nem a troca de realizadores e a têmpera de David O’Selznick beliscaram a obra-prima que é “E tudo o vento levou.”, de Victor Fleming. Tenho a certeza que nem a própria Margaret Mitchell distinguiria Clark Gable e Vivien Leigh de Rhett Buttler e Scarlett O’Hara. Como também estou certa que esta perdoou o acréscimo do advérbio de modo à mais célebre frase do filme: “Frankly my dear, I don’t give a damn.”.

Imagem: retirada do blog pipocasetretas.wordpress.com

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segunda-feira, agosto 18, 2008

Confrontos


Os brasileiros têm um ditado que reflecte de forma perfeita a minha posição face aos confrontos: “Eu dou um boi para não entrar numa discussão. Mas, depois de lá estar, dou uma boiada para não sair.”.

De facto, eu odeio discutir. Nada me incomoda mais do que pensar em tirar satisfações com outra pessoa, em elevar a voz e ter de impor (de forma mais ou menos agressiva) as minhas opiniões ou críticas. Se existem pessoas que anseiam o confronto, pessoas para as quais este funciona como um escape, e que inclusive se oferecem para debater as questões e chatices dos outros (eu já conheci - e ainda conheço – algumas), eu não sou uma delas. Apesar de secretamente invejar esta apetência e, sobretudo, a capacidade de entrar em conflito com os outros sem pestanejar, eu nunca o consigo fazer com leveza e desenvoltura. Tento sempre seguir a via da diplomacia e da argumentação calma e racional. Mas nem sempre resulta.

Ora, é nestes casos em que não resulta que o caldo se entorna. Porque se é certo que evito iniciar ou dar seguimento a conflitos, também o é que não lhes fujo, nem levo desaforos para casa. Quando entro numa situação destas, das duas uma: ou já não existe outra forma de resolver a situação, ou fui provocada com algum comentário menos feliz (leia-se “idiota”). Assim, uma vez envolvida num confronto seja com quem for, o meu rastilho é muito curto e os meus argumentos tendem a evoluir da moderação e racionalidade para o acinte. Demasiadas vezes atiro a matar, procurando anular o interlocutor de imediato e sem retaliação. Ás vezes corre bem (quando a inteligência de argumentos e postura mútuas encerram a questão rapidamente), outras nem por isso (quando não há argumentação que valha e a discussão escala e escala até atingir um ponto sem retorno).

Para finalizar, se tivesse de resumir a minha postura sobre este assunto teria de conjugar 2 vertentes:
- Nunca se deve provocar uma discussão, evitando confrontos fortuitos;
- Mas, “se te morderem, lembra-te que também tens dentes” porque “quanto mais te baixas mais se te vê o …”.

Imagem: retirada do blog oficinadegerencia.blogspot.com

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segunda-feira, agosto 11, 2008

Blood runs thicker than water

Eu nunca quis ter filhos. Mas, se um dia viesse a decidir nesse sentido, gostaria de ter dois, e nunca menos que isso. Esta opção aparentemente contraditória tem uma explicação muito simples: eu adoro ter irmãos. E não passa só por eu ter os melhores irmãos do mundo (!), passa pelo facto de eles terem enriquecido de forma inquestionável a minha infância e adolescência, de terem ajudado a moldar aquilo em que me tornei.

Eu sou a filha mais nova de uma família de 3 irmãos, sendo que 11 e 12 anos me separam dos meus manos. Assim, a minha infância foi passada a espiar os seus segredos, a imitar as suas modas e atitudes, a exigir a sua atenção e a contar com eles para me ensinarem tudo e mais alguma coisa (à minha irmã devo a desenvoltura na língua inglesa e o interesse pela dança, ao meu irmão a cultura musical e o domínio do traço quando desenho). Na época difícil da adolescência, fui amparada sempre que tropecei, nunca deixando de recorrer a um ou a outro, e encontrando sempre uma mão estendida (com a minha irmã passei, aos 13 anos, as primeiras férias sem “os pais”, ao meu irmão agradeço ainda o meu primeiro carro). Claro que por vezes senti o peso da sua ascendência sobre mim, o poder de dois irmãos mais velhos habituados a controlar o benjamim da família. Mas também nunca deixei de sentir (sempre, mas sempre) a sua asa protectora e o seu amor incondicional. Na minha irmã reconheço a minha mais fiel confidente e no meu irmão o meu principal defensor.

Passámos por muito juntos, e juntos conseguimos ultrapassar situações demasiado difíceis para encarar sozinhos. Aprendemos a ouvir-nos, a respeitar-nos e a contar uns com os outros, a saber que o podemos fazer. Acompanhando de tão perto o evoluir das suas vidas, tirei preciosas lições para a minha, e acredito que também eu os inspirei de alguma forma. Não trocaria o nosso triunvirato por qualquer outra alternativa.

Imagem: retirada do blog gostodeopostos.blogspot

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segunda-feira, julho 21, 2008

Coração numa mão, carteira na outra


Cada pessoa tem uma forma muito própria de lidar com a tristeza interior que por vezes assola o ser humano. Algumas tentam espantar os sentimentos saindo sempre que possível para evitar ficar a sós com o seu próprio desgosto; no extremo oposto, há as que se fecham em casa com uma manta e meia dúzia de CD’s indutores do suicídio, e passam todos os momentos livres a chorar baba e ranho e a gritar a altos pulmões “Porquê a mim?!”; também há aquelas que encontram alívio na comida, compensando em quilos extra as alegrias que teimam em não aparecer; por fim, há as pessoas que encontram soluções alternativas como, por exemplo, comprar tudo o que lhes passa pela frente.

Eu posso dizer que já experimentei praticamente todas estas reacções, às vezes conjugando duas ou três num verdadeiro acesso de loucura ao bom nível de “Voando sobre um ninho de cucos”. Ultimamente tenho evitado encarnar a personagem que povoou os meus piores pesadelos de infância (“Moby Dick, a baleia branca”), voltando todas as minhas dores e desamores para o consumo desenfreado. Para que se compreenda bem, eu tenho uma faceta de “mão-de-vaca”, de “Tio Patinhas”, que me leva a fugir de grandes despesas como o Diabo da cruz: acho que nunca me viram a dar mais de 100 Euros por umas botas, nem mais de 50 por uns sapatos, e só demorei 3 anos a decidir comprar uma televisão LCD. Mas, como todo o bom forreta, sempre tive uma certa dificuldade em resistir a uma boa pechincha, e, como mulher, continuo a acalentar a ilusão de que preciso mesmo de mais aquele par de sandálias, ou de que aquele casaco vai reestruturar todas as peças da minha vida que teimam em não encaixar.
E pronto, no seguimento de uma fase menos boa, em que a lágrima teimou em aparecer no canto do olho, vi-me, de repente, submersa num mar de tops coloridos, literatura clássica e moderna, camisolas trendy, cremes corporais, CDs revivalistas, shampoos tonificantes, pulseiras da moda e brincos psicadélicos.

Não é que não mereça estes mimos, “Porque eu mereço.” (quem inventou isto é um génio e, se não for mulher, conhece de certeza muitas de nós), mas analisando o referido ataque consumista em retrospectiva, assusta-me um pouco este descontrolo emocional. Racionalmente, sei que nada disto me vai colocar nas mãos o Santo Graal (pelo contrário, uma compra parece sempre dar lugar a outra: ou porque “não tenho nada que combine com o casaco novo”, ou porque “sem o gel contorno de olhos de soja, o creme anti-rugas de caviar não tem o mesmo efeito – não tem nada a ver, mas já repararam que cada vez há mais semelhanças entre a actual indústria da beleza/estética e um restaurante nouvelle cuisine dos anos 80?), mas é de tal modo viciante, e sobretudo alienante, que me começa a parecer verdadeiramente perigoso.

Imagem: retirada do site www.decoradoronline.com.br

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segunda-feira, julho 14, 2008

Não há pessoas (quase) perfeitas

Se para muitas coisas sou uma céptica empedernida, no que toca a analisar as pessoas de quem gosto sou como manteiga ao sol, a proverbial crente. É certo que eu tendo a partir do princípio que toda a gente é má até prova em contrário, mas uma vez que alguém me conquista passa a carregar o epíteto de “PQP” (pessoa quase perfeita) – isto é, sabendo que à partida ninguém é perfeito, eu passo a assumir que, no mínimo, estas pessoas têm uma forte base de características e princípios com os quais poderei sempre contar.

O que eu pareço esquecer-me consecutivamente é de um facto muito simples: podemos sempre contar com as pessoas para nos desiludirem. Nisso, elas nunca falham. Assim, as minhas histórias de “amor” (seja com namorados, seja com amigos) tendem a ficar marcadas por momentos em que dou comigo num estado entre o chocado e o choroso, amaldiçoando a minha sorte por mais uma vez ter caído no engodo da PQP. Ás vezes a coisa é séria, e acaba com a admiração que sentia por esta ou aquela pessoa (o que equivale a dizer que acaba com a amizade/amor), mas a maior parte das vezes trata-se de pequenas desilusões, cortes de papel que não matam mas doem que se fartam (e deixam pequenas marcas indeléveis na pele). É que eu costumo estar preparada para os inimigos e pessoas que evito, mas para os amigos e outras pessoas próximas o peito está sempre aberto quando recebo as balas.

Aos poucos, vou-me convencendo que é destas mágoas que a vida é feita. E que as minhas expectativas não são justas nem para mim, nem para as PQPs. Somos todos meros mortais e, se esperarmos demais seja de quem for, estamos mesmo a pedir a inevitável decepção.

Imagem: retirada do blog pinguimalegre.blogspot.com

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segunda-feira, julho 07, 2008

O Sol, Eu e a Praia


Depois de uma infância de adoração às praias e ao calor, decidi que estava farta dos inúmeros escaldões de fazer inveja a qualquer churrasco, das nortadas de ventos mais cortantes que um bisturi, e das tempestades de areia ao nível das do deserto do Sahara. Assim, na adolescência cortei relações com o sol e, a partir daí, dediquei-me a cultivar uma pele digna da época vitoriana.

Este Verão, depois de anos a ser aliciada pelos amigos, encorajada pelos médicos e ameaçada pela minha mãe, decidi quebrar a minha senda de anos a evitar o sol. É verdade: 2008 marca o meu regresso à convivência com o astro-rei. Tenho feito questão de me expor aos seus raios inclementes, seja em piscinas privadas, seja em esplanadas mais ou menos fashion. E tenho de confessar que não me tem desagradado de todo: além de ficar com uma tonalidade um pouco mais adequada à estação, até a disposição parece ter melhorado ligeiramente. E faz sentido: afinal eu nasci no mês de Agosto: tenho obrigação de gostar do meu astro regente.
O mesmo não posso dizer das praias: continua a irritar-me profundamente suportar a areia, vento e má-criação a que este ambiente nos expõe. E, além disso, nas praias do Norte não se consegue nadar: até se pode tentar, mas corre-se o risco de morrer vítima de hipotermia.

Mas pronto, não se pode pedir tudo de uma só vez. Quem sabe se um dia não venho a render-me novamente às maravilhas de um dia inteirinho estendida numa toalha, por trás do indispensável corta-vento, a levar com a novela “Pais e Filhos” ou “Uma família portuguesa e a sua merenda”, com o creme solar a funcionar como íman para o extenso areal (numa imitação barata de um croquete humano), e com o suor a escorrer por cada poro, gozando a antecipação de enfiar o dedão grande do pé numa água que me fará desejar nunca ter saído da toalha.

Imagem: retirada do blog vida-a-duas.blogspot.com/2008/05/o-sol.html

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segunda-feira, junho 23, 2008

3 frangos e 2 panachés


Portugal no Euro 2008. A miragem de umas meias-finais. O povo ao rubro. As ruas encharcadas de vermelho e verde. O coração a transbordar de esperança. A alma a acreditar. E uma quinta-feira que acabou com um gosto e um desgosto.

Fui ver o nosso jogo ao Bar do João, em Leça da Palmeira (o nome verdadeiro do café é “Sol Nascente”, mas “Bar do João” é mais pitoresco e convidativo, menos óbvio num sítio “in”, com praias e bares da moda). Envolvida por uma pequena onda de amigos e conhecidos, e por uma vaga de desconhecidos, passei 90 minutos num verdadeiro estado de ansiedade. Eu, que nem sou uma verdadeira apreciadora de futebol, parece que encarno outra personagem quando realmente me disponho a assistir a um jogo: gritei contra tudo e todos, incentivei a nossa equipa, amaldiçoei a selecção alemã, descabelei-me nos momentos chave do jogo e espumei quando sofremos cada um dos 3 golos que marcaram a nossa sorte (3, Ricardo, 3!). Em última análise, sofri desalmadamente e só não me caíram uma ou duas lágrimas por vergonha (e graças a uma bem treinada capacidade de domar as emoções em público).

No meio de tamanha comoção descobri que uns panachés escorregam muito bem. Pode parecer um facto sem importância, mas fiquei verdadeiramente feliz com este recém-adquirido gosto. É que eu sempre odiei cerveja, o que, num país com a tradição do nosso, nem sempre é fácil. Na memória colectiva de todos os portugueses (auxiliadas, sem dúvida, por campanhas de publicidade a puxar ao sentimento) aparecem frequentemente imagens de esplanadas à beira-mar ou festas animadas, saborosos tremoços ou suculentas francesinhas, um sol a pôr-se ou uma lua madrepérola, grupos de amigos perfeitos e, em grande destaque, copos esguios e reluzentes com o afamado néctar de ouro no interior. Ora eu nunca consegui participar verdadeiramente destas “comunhões” alcoólicas: quando estavam todos a emborcar cerjevolas, lá estava eu a beberricar uma vodka, um Bailey’s, um Martini ou um Porto (dependendo da fase da minha vida para a qual remetem as recordações). É triste (e bastante mais dispendioso).

Mas agora tudo mudou, graças ao futebol e ao panaché. A mistura dos dois fez-me perceber que afinal aquilo até marcha, fácil, fácil. E apesar do efeito diurético brutal (o meu corpinho não está habituado) e de o copo não ficar tão amarelinho como com a cerveja, já fico contente de ter um dos tão afamados copos de fino na mão.
Viva Portugal!

Notas:
- Um agradecimento especial à amiga que, há dias, numa praia, me aliciou a experimentar um “tango” (abrindo a porta a novas aventuras no fantástico mundo da cerveja).
- Escusado será dizer que eu já tinha bebido panachés e tangos, mas não me tinham convencido nada (deve ser da idade…).

Imagem: retirada do site www.fotopg.com.br/Imagens/Fotos/1748.jpg

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segunda-feira, maio 05, 2008

O Homem da minha vida

Encontrei o Homem da minha vida. Não foi fácil, mas já está. Assunto arrumado.
Para ser sincera, já o encontrei há bastante tempo. Ou melhor, nem precisei de o procurar: foi-me entregue de bandeja, numa noite de Outubro, numa Pizza Hut da Avenida da Boavista. Na altura pareceu-me uma companhia bem-disposta, alguém simpático, com um humor mordaz e inteligente, alguém com quem se podia ter uma conversa interessante e enriquecedora, alguém com uns lábios de comer e chorar por mais. E foi isso mesmo que fiz: comi, e nem imaginava o que ia chorar por mais.

A nossa relação foi complicada, com altos muito altos e baixos mais baixos ainda. Rimo-nos juntos, até doer a barriga, fazendo piadas corrosivas e criticando de forma cáustica quem nos cruzasse o caminho. Criticamo-nos violentamente, sem entendermos os motivos que nos moviam, demasiado diferentes para nos aceitarmos. Interferimos nas vidas um do outro, arriscando palpites e atirando decisões, deixando rasgões e marcas indeléveis pelo caminho. Beijamo-nos com pureza e ternura, em noites brancas de sono, amamo-nos com fúria e mordidas de sangue, em noites embriagadas de desejo. Apaixonamo-nos sem querer, quando menos esperávamos, em camas revoltas, entre segredos partilhados em surdina. Chorámos sozinhos quando o destino nos afastou, procurámos afecto em braços estranhos. Sofremos demais, discutimos demais, amamos demais. Ainda hoje, apesar de mais calma, a nossa vida continua difícil: somos demasiado diferentes e isso não mudará nunca.

Eu já desconfiava do que este homem era para mim, mas foi complicado reconhecê-lo com a vida a dar voltas e trambolhões em catadupa, sem tempo sequer para respirar. Até aqui sempre o vi mais como “a minha obsessão”, “o meu vício”, “o que me dá a volta”, “o que eu não consigo esquecer”. Ou então como “o meu amor”, “o meu amante”, “o meu melhor amigo”, “o meu confidente”. É, com diligência, pacientemente, aos poucos, sem eu me aperceber, ele foi entrando na minha vida, tornando-me cada vez mais dependente, ocupando cada cantinho do meu ser com a sua presença. E eu, sem o pretender, fiz o mesmo na vida dele.

Só agora o sei, só agora o posso dizer, só agora o reconheci como tal. É ele, com todos os seus defeitos. É ele, com todas as suas virtudes. Enlouquece-me, entristece-me, faz-me rir até às lágrimas, faz-me chorar amargamente, ama-me, completa-me. E, independentemente do final da história, é ele. O Homem da minha vida.

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segunda-feira, abril 14, 2008

Montanha Russa

Sempre adorei andar na montanha russa. A sensação de velocidade descontrolada, de perder o equilíbrio em curvas apertadas, de cair de alturas inimagináveis, de gritar até os pulmões doerem, de rir à gargalhada, sacudida pelo medo e pelos picos de adrenalina, de sentir os cabelos a voar e os membros a agitar-se sem vontade própria, do coração a bater descompassadamente com o sangue a ser bombeado em golfadas abundantes. A sensação de ser conduzida, agitada e atirada para destinos desconhecidos, sempre ao som de uma banda sonora bem ritmada (ainda que nem sempre de acordo com o gosto pessoal). Adoro a sensação de não ter de controlar, de não o poder fazer.

Não sei porquê, sempre pensei que a vida fosse um pouco como uma montanha russa, em que eu apenas teria a escolha de pagar o bilhete para andar. Que tudo o resto seria uma aventura louca, com um final seguro à espera. Era isso que eu queria e com o que sonhava: uma vida animada, cheia de surpresas mais ou menos agradáveis, em que cada curva reservaria uma injecção de adrenalina e cada queda uma nova subida em direcção aos mais altos picos de divertimento. Afinal, chego lentamente à conclusão de que a maior parte das vidas se assemelha mais a um enfadonho carrossel. Nele encontramos uma sequência de pequenas ondulações, com muito pouco de espectacular; podemos escolher se queremos fazer a viagem ao lado de animais domesticados ou de animais selvagens, e se seguimos em carros, motas ou bicicletas; para um pouco mais de adrenalina podemos entrar nas rodas giratórias, que nos atiram na direcção contrária à que seguem os restantes companheiros de viagem; tudo isto moderado pela voz agridoce de um animador pouco convincente que nos grita aos ouvidos: “Mais uma voltinha! Agora para trás… agora para a frente…”. No fim, quando analisámos a viagem, chegámos à conclusão de que teve poucos focos de interesse, de que nos limitámos a entrar na onda, deixando de sentir qualquer verdadeira satisfação com as rotineiras subidas e descidas. Ficamos com o gosto acre da desilusão na boca. Questionamos o objectivo. Foi para isso que pagámos? Foi por isso que ficámos na fila durante horas? É para isso que estamos aqui?

Dá vontade de andar um pouco mais nesta feira demasiado popular, em direcção à montanha russa. O preço a pagar pode ser bastante mais alto, a viagem bastante mais assustadora, mas pelo menos no final sempre temos algo para contar.

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segunda-feira, abril 07, 2008

O meu GPS anda perdido

Este ano, no Dia dos Namorados, recebi a melhor prenda que me poderiam ter dado: um GPS. É verdade. Eu, que nunca consegui dar mais de 2 voltas ao quarteirão sem me perder irremediavelmente, estava finalmente autónoma e verdadeiramente independente. Amei, delirei, caí de joelhos e bendisse a minha boa sorte por ter um namorado que escolhe sempre a prenda certa para mim (há 2 anos, recebi uma Massagem de Pedras Quentes, no SPA do Sheraton…).

Logo que foi possível experimentei o fantástico aparelho, e o resultado foi do mais convincente que há: com uns “por favor, daqui a 300m vire à direita” e uns “por favor, daqui a 100m vire à esquerda”, rapidamente me encontrei mesmo em frente do edifício para o qual pretendia ir. Sabendo que nunca lá teria ido parar sozinha, fiquei completamente rendida. Aquilo funcionava mesmo!
Ora, o que eu já devia saber é que na minha vida nada corre exactamente como previsto, nada funciona tal como devia, nada avança sem percalços na direcção correcta. E claro que o GPS não podia ser a excepção à regra, como eu descobri penosamente nem 2 semanas depois.
Tudo aconteceu assim: num dia triste, em virtude de uma situação infeliz, seguia eu em direcção a um pequeno povoado no Norte do País; armada de GPS e com uma morada mais ou menos completa, a estrada era minha amiga e eu acelerava sem receio nem necessidade de telefonar a confirmar indicações. Tudo correu sobre rodas, até que as estradas principais ficaram para trás e comecei a embrenhar-me aos poucos nas secundárias, e depois em ruelas alternativas, e depois em trilhos escuros, cada vez mais recônditos. Por essa altura já eu tinha começado a questionar as escolhas do meu co-piloto… mas entre o meu próprio sentido de orientação, completamente inexistente, e um moderno e tecnológico GPS, não havia grande escolha. E assim, perante indicações seguras e decididas, lá fui continuando a enfiar-me cada vez mais para o meio de campos e plantações, já em caminhos demasiado estreitos para o meu carro, com silvas a arranharem a pintura de ambos os lados, sempre com a esperança de que a salvação estaria no virar da próxima curva. Mas no virar da próxima curva só estava um tractor. Um tractor, diga-se, cujo dono ficou bem mais surpreendido que eu por ver alguém num Toyota Auris novo a aventurar-se em tal caminho.
Foi então que eu desmoronei por completo. A suar profusamente, com o odor do desespero a exalar de cada poro, completamente aterrorizada, fiz uma análise muito pouco racional da minha situação: estava completamente perdida no meio de um campo de cultivo ao qual tinha chegado mediante indicações de um GPS psicótico, estava ladeada por 2 muros de pedra, num caminho demasiado estreito para inverter marcha, tinha colocado o carro da empresa (e com ele o meu emprego) em sério risco. E foi aí que resolvi fazer a única coisa que me pareceu minimamente lógica: liguei ao meu namorado, completamente histérica, a descabelar-me e a chorar compulsivamente, pedindo-lhe ajuda ao mesmo tempo que lhe assegurava que não poderia ajudar-me, uma vez que eu não fazia a mínima ideia de onde estava… Valeram-me a sua calma e o seu discernimento: conseguiu convencer-me de que não ia morrer ali, emparedada, que bem ou mal ia conseguir tirar o carro, que estragasse o que fosse preciso para o efeito, que dinheiro era o que menos devia preocupar-me naquela situação e, sobretudo, que tinha de respirar fundo e procurar manter a calma. E assim fiz: respirei fundo (mesmo sabendo que corria o risco de uma apoplexia) e, mediante 537 manobras consecutivas, consegui inverter a marcha e fazer o trajecto inverso, saindo do outro lado com o carro completamente riscado, sem o espelho retrovisor esquerdo, com o pára-choques arranhado, e ainda completamente perdida. Mas com um enorme suspiro de alívio e com a inabalável certeza de que iria encontrar o caminho à moda antiga: perguntando às pessoas que encontrasse pela estrada.

Umas semanas mais tarde, convencida de que tudo tinha sido um enorme mal-entendido entre mim e o aparelho, resolvi voltar a utilizá-lo. Só que desta vez, pelo sim e pelo não, fiz-me acompanhar do melhor mapa que conheço. Para resumir, bastará dizer que nunca tinha visto o meu namorado tão perdido do que quando tentou utilizar o dito GPS (nem tão furioso… mas isso até teve piada, pelo inusitado da situação: eu a tentar acalmá-lo, morta de riso, e ele a espumar por todos os lados, completamente fora de si).

Apesar da raiva inicial, e da imensa desilusão que se seguiu, concluí que a culpa pode não ser da tecnologia. Tal como os animais, os GPS podem acabar por projectar a personalidade do dono. Infelizmente, neste caso, trata-se de uma dona muito pouco orientada. Fica por ver se acabamos ou não por chegar a bom porto.

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